Alô, Neide! Alô, Núbia! Memórias memoráveis de Enock Fonseca.

Alô, Neide! Alô, Núbia! Memórias memoráveis de Enock Fonseca.núbiaUm jovem de família muito rica e estudante de Direito, Oliver (Ryan O’Neal), conhece e se apaixona por uma estudante de música, Jenninfer (Ali MacGraw), e acabam se casando algum tempo depois. Porém, o pai do rapaz não aceita a nora, por ela ser uma moça de família humilde e acaba deserdando o filho. Algum tempo depois, a moça tenta engravidar e não consegue; vai então fazer exames e descobre que está gravemente doente. Ela tem câncer.

Esta é a sinopse de “Uma História de Amor”. A vida imitou a arte para o ator Ryan O’Neal que viveu uma situação quase semelhante, com a doença e morte de sua mulher, a atriz Farrah Fawcett.

E assim como resumi a breve estória de Jennifer, resumo aqui a história breve de Núbia. Núbia era minha amiga. Era filha de Mundinha e de Lourival (in memoriam). Irmã de Toinho (in memoriam), Vera, Marcos, Carlos (in memoriam), Maurício (in memoriam) e Lourivalda (Lourinha). Foi namorada e grande amor do meu irmão Mundinho. Além de minha “cunhada” afetiva foi também “minha atriz querida” no Grupo Teatral Enock Fonsêca. Tão querida, que em 1978 eu escrevi especialmente para ela uma personagem na peça “O Quadradão”. E para homenageá-la batizei a personagem com o seu nome real, Núbia. Infelizmente ela abandonou a personagem e o projeto e “Núbia” foi então interpretada por Vera Marques. Mas eu queria muito mesmo trabalhar com Núbia. E quando escrevi a peça “Alô, Neide!” ofereci-lhe a personagem principal. “Alô Neide” foi apresentada em Independência e também em Tauá em 1978. E ela viveu com muita verdade e intensidade o papel. O papel lhe agradou tanto que ela deu palpites que foram todos aceitos por mim. Núbia Alves também viveu intensamente todos os momentos de sua curta existência. Até parecia saber que não teria tanto tempo. Era setembro de 1992. Naquele mesmo mês fui Fortaleza para assistir a peça “A Partilha” (coincidentemente a peça tem “a morte” como tema central). A peça foi escrita por Miguel Falabella, tinha no elenco nomes como Susana Vieira, Natália do Vale, Arlete Salles e Thereza Piffer e seria apresentada no Teatro José de Alencar. Depois disso eu viajaria para a Praia do Iguape com alguns amigos para descansar um pouco a moleira, pois papai falecera à menos dois meses e eu continuava abalado com sua morte repentina e estava fisicamente estressado. Só que antes de cumprir “minha agenda” já toda programada) decidi visitar Núbia que estava internada com câncer já num estágio avançado da doença, na Gastroclínica. Fui com Laurice Leite (incrível como Laurice está presente em momentos limites da minha vida). Ao chegarmos no quarto do hospital fomos recebidos por Vera (irmã que acompanhou Núbia até os últimos momentos de vida) e ao adentrar naquele quarto, deparei-me com uma imagem inesquecível. Núbia estava lá deitadinha… magrinha… raquítica… esquálida… doce… terna. Nós seres humanos iguais somos conscientes e inteligentes e sabemos perfeitamente bem que há um momento em que o estado físico de uma pessoa doente, traduz a agonia. E naquele instante era essa a tradução do estado de minha querida amiga. E quem está doente de câncer… principalmente. Nós sabemos também que isso começa a acontecer quando a pessoa não se alimenta mais. Não porque não queira, mas porque o organismo recusa. É tão provável, que quando inventamos de colocar comida na sua boca, a simples menção de um prato de comida, a pessoa sente repulsa e vontade de vomitar. Fica sem comer direito durante vários dias e acaba ficando com o rosto chupado e o corpo esquelético. Perde o apetite total. Só não perde a vontade de realizar esse ritual. E como se já não bastasse a fome e as dores… ainda há o medo e a solidão diante da morte próxima. Em Núbia, naquele dia em especial, isso já era perceptível. Percebi que levantar-se para ela era um esforço insano. Só com ajuda. Notei que a sua percepção da realidade estava se esvaindo devagarinho. Era visível que iria chegar uma hora que ela pressentiria apenas familiares, enfermeiras e médicos que se moveriam ao seu redor feito sombras. Vera me falou que as drogas tiravam-na sua dor – não toda – e provocavam nela sonolência e confusão. Não dava para ela saber quem tinha estado ali, se era dia ou noite, nem quanto tempo passou desde a última tentativa de encontrar uma posição mais confortável na cama. Concordo que a morte quando chega numa situação limítrofe dessa, é uma benção, pois acaba o sofrimento. Núbia, estava exatamente “nesse estágio” e eu fiquei em “estado de choque”. Tive um susto! Tive que controlar as minhas emoções. Foi terrível contemplar, uma pessoa tão cheia de vida, tão linda, tão gata, tão gaiata, tão alegre, tão altiva, tão autêntica, tão leal, tão amiga, tão direta, tão franca, tão sincera, tão querida, tão amada, tão boa… em seu último papel… definhando à olhos vistos, num cruel estágio terminal. Tive a nítida sensação que não suportaria falar-lhe. Mas venci esse obstáculo. Ao aproximar-me da cama lembro-me de olhar para ela e dela me dizer baixinho: “Enock, desculpa não poder te dar mais atenção, é que me dão uns remédios tão fortes que me deixa com muito sono”. Caraca! Ela estava me pedindo desculpas “por não me dar a devida atenção!”. Como é que uma pessoa que estava “daquele jeito” ainda se preocupava em ser atenciosa?! Foi a primeira coisa a me desmontar. Vi que ela abria e fechava os olhos como que em câmera lenta. Forçava as pálpebras a ficarem levantadas. Era notório que ela queria muito ficar acordada de qualquer jeito. “Oh, Enock! O tio Badeco morreu! Bem que eu queria que tivessem trazido logo ele para esse hospital. Se tivessem falado comigo ele não tinha morrido não!”. Sua bondade, sua grandiosidade, sua generosidade, seu altruísmo permitia que no estado em que se encontrava, tivesse forças para reclamar da morte prematura de papai. Eu fiz o impossível para não chorar. Vera pediu para controlar nossas possíveis emoções e para não chorar diante dela. Não teve outro jeito! A cena me desmontou por completo. Dilacerou minha alma. Sua debilitação deu-me a estranha sensação que eu morria junto. Ela estava muito frágil e tudo indicava que não duraria muito mais tempo. Particularmente não gosto de ver pessoas doentes. Fico com raiva de visualizar “no que” a doença as transforma. Vivenciar a dor física, o sofrimento de fragilidade e impotência de Núbia naquele momento foi uma ode ao meu amor por ela. Foi uma dor dilacerante! Uma dor excessiva na alma. E para a dor na minha alma? Ah! Para essa dor foi necessário a busca no apoio de um Ser interior. Saí dali pedindo a Deus que lhe desse mais tempo de vida, mas também pedi: “Deus, descansa ela!”. Até hoje não consigo me desvencilhar da sua imagem tão fragilizada, do seu corpo tão debilitado e de seus olhos que involuntariamente insistiam em fechar… e ela insistia em abri-los.

Quando Núbia fez a personagem “Neide” em“Alô, Neide!”, Mundinho me pediu um papel na peça só para ficar ao seu lado. Atendi ao seu pedido prontamente. O mais incrível disso tudo é que ele nunca teve intenção e nem talento nenhum para atuar, mas interpretou “Túlio”. Não se encontravam em cena, mas se encontravam nos ensaios.

Núbia feneceu. Faleceu em novembro de 1992. Não sei precisar a data. Só sei que acabara de fazer 28 anos. Tão jovem! O meu amor e a minha saudade permanecem. E acho injusto ela não estar mais aqui, presente, para envelhecer como nós, para ver o crescimento de suas filhas, para tomar uma cervejinha, para tomar um banho de mar, para passear no Rio de Janeiro, para ver o dia amanhecer, para acompanhar a evolução tecnológica do mundo, para ouvir Legião Urbana, para assistir aos filmes do “Homem-Aranha”. Para mim particularmente, será sempre uma saudade grande, imensa, que me devora até hoje. Sinto sua falta. Sentirei sempre à sua falta, enquanto aqui estiver. Adeus, por enquanto. Alô, Neide! Alô, Núbia!

Postado Por Marcela Torres Teixeira

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