Júnior e Suelânia

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As noites de São João sempre inspiraram as artes, a poesia e a literatura pelo encanto vivencial, pela força simbólica e pela expressão concreta dos laços comunitários. São festas associadas à fartura, ao amor, ao calor das fogueiras, às sonoridades enamoradas, à alegria das bandeirolas e ao sabor dos mungunzás, das canjicas e da refrescância dos aluás.

Quando realizadas com espírito da união e da esperança, brotam e se espalham pelas semeaduras do sagrado, do amado e dos afetos, no sentido mesmo daquilo que nos afeta, que nos marca, que fica em nossa memória. Foi assim na sexta-feira passada (23), na linda noite de São João em que se casaram Júnior dos Santos e Suelânia Sousa.

Os dois foram crianças da Fundação Casa Grande, de Nova Olinda, organização social autônoma com 25 anos de profundo e efetivo desenvolvimento da cidadania por meio da educação que nasce na cultura, tendo como fonte transformadora uma estrutura familiar comunitária, em que todos cuidam de todos e de tudo.

Júnior e Suelânia simbolizam os fios e os filhos desse bulbo de sociabilidade orgânica espalhados por fronteiras móveis e multidirecionais da existência. Na cerimônia do casamento, ocorrida no Teatro Violeta Arraes, o educador social Alemberg Quindins disse que quando, ao lado da arqueóloga Rosiane Limaverde (1964 – 2017), idealizaram a Fundação Casa Grande e o Memorial do Homem Kariri, foi para que ali a felicidade pudesse acontecer.

O bispo anglicano gaúcho, Clóvis Rodrigues, que conduziu os ritos de religiosidade, ressaltou o amor construído na convivência, no passar dos anos, que ele tão bem conhece e reconhece na trajetória de Júnior e Suelânia, percorrida entre um ambiente constantemente renovado na paixão pelo outro e na corresponsabilidade com o entorno expandido.

Andréa e eu tivemos a satisfação de sermos padrinhos desse adorável casal. Entre emocionado, pensativo e alegre, deixei-me fluir pela festa que começou às cinco da tarde, com as solenidades civil e religiosa simultaneamente, e se estendeu para além das dez horas da noite, com um sarau de causos bem humorados, tendo ao meio um arrasta-pé sanfonado e uma dança de quadrilha junina.

Ali estava concretamente a síntese desse projeto construído no amor sutil, familiarizado, de histórias comuns e tantas trocas. Meninas, meninos, mães, pais, amigas e amigos locais e convidados de outros lugares próximos e distantes, produziam literal e complementarmente a festa e interagiam em reciprocidade co-geracional, com desejos e interesses pessoais realizados em ideal comum e senso de campo de sentido.

Júnior e Suelânia dos Santos cresceram em um mundo onde o imaginário não é especulativo, mas uma prática. Ela desenvolveu a grife Modus Cariris, que vende peças de vestuário com temas da região, e ele criou uma Agência de Turismo Comunitário, voltada para a valorização da geografia humana da qual faz parte. Cuidam da vida, porém seguem cuidando e sendo cuidados nesse lugar de vínculos, onde o agir em direção ao outro não é só para estar próximo, mas para ser o próximo.

Um evento nesse nível de simplicidade estrutural e de sofisticação relacional requer abertura à interinfluência e força ontológica na construção do lugar dentro do espaço, onde a cultura do contato gera modos de ser e de condutas em equilíbrio dinâmico. As alianças que simbolizam o compromisso conjugal de Júnior e Suelânia têm o brilho das vidas sem segredos, conectadas pela ação que nasce dos quereres individuais e das buscas coletivas. Porque dois nunca são somente dois.

fonte: www.flaviopaiva.com.br

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