Memórias de Enock Fonseca. Era 30 de agosto de 1999…17 dias longe do sol.

Memórias de Enock Fonseca. Era 30 de agosto de 1999…17 dias longe do sol.MARLENEEra 30 de agosto de 1999. Mais ou menos umas 15:00h. Eu preparava minha bagagem de volta para a nossa Porronca (partiria às 18:00h) quando o telefone tocou (na casa de Laurice). Era Marlúcia! – “Enock, a Nenen morreu!”. Marlúcia me falava do falecimento de Marlene e me chamava para ir pro Hospital Cura Dar’s. Ela pedia minha presença ao seu lado. Queria também que eu ficasse para irmos juntos com o “corpo” de Marlene na viagem de volta. Eu estava de malas prontas para ir de busão, mas atendi ao seu pedido mais que imediatamente. Liguei para Mundinho (meu irmão) para juntos irmos ao encontro “delas” no hospital. Ainda tive a iniciativa de ligar para Bicudo e Rosa e informar-lhes do falecimento de nossa amiga/vizinha/irmã. Num curto espaço de tempo estávamos os quatro; eu, Mundinho, Bicudo e Rosa fazendo companhia às duas. Sim… isso mesmo… às duas. Encontramos Marlúcia sentada ao lado do corpo de “sua Nenen”. Ela chorava. Um choro contido. E eu olhava para ambas… sem saber muito como agir naquele instante. A gente nunca sabe. Eu pelo menos nunca sei. Eu precisava conhecer aquele terreno para pisar. Uma das coisas que aprendi a fazer, é olhar no fundo dos olhos das pessoas que perdem seus entes queridos e a olhar bem o corpo inerte e sem vida. Vejo assim, os familiares dilacerados pela sangria da alma profundamente ferida em eterna cicatriz. Só eles tem duas funções: ver e chorar. E isso eu fiz. Olhei bem os olhos de minha amiga Marlúcia. Olhei o corpo de Marlene. Chorei baixinho. Os olhos de Marlúcia possuem um tom supostamente “esverdeados”, uma bela cor. Vi-os avermelhados e umedecidos, como se faiscassem dor e saudade. E o corpo estava ali, coberto por um lençol branco e jazia sobre o mármore frio de um quartinho (disseram-me que era uma “capela”) que ficava nos fundos do hospital. A dupla aguardava o caixão que vinha de Independência na ambulância e iriam na mesma ambulância com Marlene acomodada dentro dele. A mesma ambulância que trazia o caixão vazio, o levaria de volta… agora ocupado.

Marlene fora para Fortaleza no comecinho de agosto daquele ano 1999. Decidira finalmente operar aquela sementinha que nascera dentro dela e que adiou a extirpar por causa da gestação de seu bebê. Só depois de um ano e três meses (acho) foi que ela decidiu “se livrar” daquele incômodo que insistia em tomar o espaço dos outros órgão dentro do seu corpo franzino. Ela esperou Aretha nascer. Depois amamentou-a e quando se sentiu segura… foi em busca de sua cura.

Só cheguei em Fortaleza em 14 de agosto. Fui para fazer o de sempre: “farrear nas noites e boates calientes da terra do sol”, “praiar” e “rever brother’s”. Minha primeira atitude foi visitar Marlúcia e Marlene (estava internada no Hospital Cura Dar’s). E faria isso por uma simples razão. Eu era amigo delas e da família Cancão&Sampaio inteira. O meu primeiro dia de visita foi muito divertido. Minhas tiradas humorísticas fazia Marlene sorrir e gargalhar de cada besteira dita, de cada tolice que eu emitia e de cada gesto que eu fazia. Marlene estava esfuziante e confiante. Ela estava deitada numa cama com lençóis branquinhos e cheirosos. Recordo-me bem disso. E ria… ria… ria… e se enrolava nos lençóis de tanto rir. Lembro claramente de uma pergunta feita logo que cheguei: “Hein, Enock! O povo de Independência deve tá falando muito de mim dizendo que eu tô com câncer, né???”. A pergunta me pegou de sopetão! Olhei para ela meio desconfiado e respondi-lhe com precisão, que não sabia, que não tinha escutado falar nada. E de fato não ouvi. Não costumava dar ouvidos a “fuxicos’. Não era “muito a minha praia” prestar atenção em “Bocas de Matildes”. Mas ela retrucou: “Mas menino! Enock, eu tenho é certeza que meu nome tá na boca de todo mundo!”. E eu falei: “Ah, Marlene! Problema de quem fala! Ninguém tem nada a ver com a SUA VIDA!”.

E ninguém tinha mesmo!

Passei a visitá-la dia sim… dia não. Via o quadro dela evoluir negativamente a cada dia que passava. Não tinha melhora. Mas eu via o quanto ela acreditava que sairia dali ilesa e voltaria para sua vida comum ao lado do seu marido, de suas filhas queridas e por acaso uma era o bebezinho que acabara de nascer. Ela só pensava nisso. Os dias foram passando. O sol brilhando lá fora. E brilhava muito. Era verão. E ela… longe do sol. O quadro dela “involuia” seguidamente. Toda vez que eu chegava ao hospital, tinha sempre uma novidade. E nunca era novidade boa. O nódulo que tinha o tamanho de um “caroço de feijão”, ganhou o tamanho de um “caroço de manga”. Depois ganhou outro tamanho maior. Depois evoluiu pr’um tamanho absurdo até chegar num ponto que se tornou preocupante e assustador. Marlúcia deu um jeito muito particular de ficar ao seu lado no hospital, fazendo-lhe companhia dia e noite, noite e dia, sem sair pra lugar nenhum. Enfrentou tudo e todos e “fincou a bunda” numa cadeira. E ficou ao seu lado da cama. Recordo-me bem do jeito de Marlene quando Zédílson, seu único amor e marido, foi visitá-la. Ela não largava a mão dele “por nada nesse mundo”. Graça (in memoriam) tia do mesmo, era muito presente e estava sempre no quarto dando forças e incentivando-a. Era ela quem cuidava da parte prática, como falar com os médicos, marcar exames, pegar resultados, remédios, etc. Nos meus primeiros dias de visita, vi-a folheando o álbum de retratos das três filhas que ficava ao seu lado sobre uma cômoda (que virou uma espécie de criado-mudo). Eu adorava observar aquele gesto dela. Pelo seu olhar, eu percebia o amor e a saudade que ela sentia de Juliana, de Carolina e da récem-nascida Aretha. Folheava aquele álbum inúmeras vezes de frente pra trás e de trás pra frente durante o dia todo. Se deliciava olhando para as três filhas nas fotos. Aquele gesto me encantava. Era nelas, nas filhas, que Marlene encontrava forças para viver… ou procurava forças para sobreviver. Aí… pimba! Chegou o fatídico dia em que a equipe médica resolveu colher o tecido do caroço que lhe incomodava tanto e que insistia em crescer desordenadamente, para fazer uma biópsia. Após a colheita, Marlene e Marlúcia foram mandadas de volta para casa (para a casa de Laura, onde elas estavam hospedadas). Lembro muito bem que na noite em que receberam o resultado da biópsia, todos (inclusive eu) estavam “em casa”. Marlúcia sentada no chão do corredor do prédio aos prantos e Marlene na sala, sem conseguir “um jeito” confortável pra se sentar ou se deitar no sofá (sua barriga crescera bastante). Ela estava agoniada com aquele desconforto e andava de um lado pro outro dizendo: “Não me enganem, não! Seja qual for o resultado, falem a verdade pra mim!”. Mas ninguém teve coragem de “falar” essa verdade que ela queria ouvir (eu acho). Bom… na minha modesta “observação”, Marlene não era tola. Se lhe esconderam a verdade não verbalizando o que de fato e concreto ela tinha… ela foi inteligente para entender tudo sem precisar ouvir. Marlúcia chorava copiosamente e dizia: “Enock, eu não estou acreditando!”. Eu tentava amenizar dizendo: “Tu tem que estar preparada pra tudo, Marlúcia. Não é fácil??? Não. Não é! Mas tem que se preparar pro pior!”.

Não podia ser de outro jeito. Eu não podia dizer algo diferente. Estava previsto tacitamente que o fim se aproximava.

Marlene voltou novamente a se internar no Hospital Cura Dar’s. Continuei fazendo as visitas… dia sim… dia não. Quando eu chegava ela já não falava mais muito comigo. Não dava muita importância a minha presença. Já não ria das “minhas bobagens”. Ficava num silencio sepulcral. Observei e percebi que o álbum de retrato “das meninas” não ficava mais ao seu lado sobre o “criado-mudo” (eu deduzi que ela havia pedido para tirar dali para não sofrer… de saudade). Marlene calou-se. E quando falava, sua voz saia quase num sussurro. Havia uma certa dificuldade em emitir sons. Ela já não olhava mais diretamente para mim e pouco se importava comigo (eu compreendia o que se passava com ela). Eu insistia em deixar o ambiente menos pesado, tentando diverti-la… mas ela estava na maioria do tempo deitada de costas, impávida e com o olhar fixo na parede. Não, ela não tinha um olhar de sofrimento e nem reclamava de nada. Isso mesmo! Nunca a vi ou a ouvi reclamar de qualquer coisa ou gemer de dor. Não! Ela não reclamava! Ficava calada com seus pensamentos. E nessa hora eu me perguntava (e me pergunto até hoje): “Meu Deus, diga-me o que a Marlene pensava quando previu que seu fim se aproximava?”. Eu conseguia entender aquele comportamento arredio. Eu acho que eu sabia o que ela sentia.

No domingo dia 29, fui visitá-la. Encontrei Marlúcia no corredor do hospital. Assim que cheguei, Marlúcia me fez entrar no quarto e disse: “Nenen, olha quem tá aqui! Sabe quem é?”. Marlene estava de costas e se virou para nós e falou: “Claro que sei! Num tô doida! É o Encok!”. E só! Sua voz tinha agora um som gutural.

Ela estava diferente. Muito diferente! Naquele mesmo instante pressenti que ela não teria mais muito tempo. Verbalizei isso para Marlúcia; “Meu Deus, como ela tá diferente!”. “Diferente como, Enock?! Porque que eu não noto nada de diferente nela?! Todo mundo diz isso! Pra mim ela tá igual!”. Mas ela não estava igual.

No dia 30, Marlene se fora para sempre, num instante em que Marlúcia teve que sair do seu lado. Parecia ter planejado isso. Laura era quem lhe fazia companhia.

A ambulância chegou. Nela vinha já Mardonio seu irmão, récem-operado do ombro. O caixão foi retirado. Marlúcia vestiu sua irmã pela última vez com o vestido simplório que Marlene havia sugerido poucos dias antes. Ela pediu também que não lhe levassem rosas e muito menos coroas de flores no seu velório. Mundinho, Bicudo, Fernando e o motorista da ambulância colocaram o corpo dela no caixão. Partimos via Porronca. Eu fui junto com Marlúcia e o caixão. Para descontrair eu contava histórias. Marlúcia ria e dizia: “Só tu Enock, pra me fazer rir numa hora dessas!”. Para poupá-la do sofrimento desviei sua atenção e virei “Sheherazade” para não nos confrontarmos com a dura realidade que vivenciávamos naquele instante. Em alguns momentos esquecíamos até que uma tragédia se abatera. A viagem para Independência prosseguia. E nós dois, com aquele caixão fechado, sem resposta, tínhamos dificuldade até em olhar um para o outro. Era mais cômodo desviar o olhar… baixar a cabeça ou procurar uma nova história pra contar. Contei os dias que fiquei em Fortaleza. Foram 17 dias de um sol intenso. Foram últimos 17 dias em que vi e estive com Marlene. Para ela… foram 17 dias longe do sol.

Postado por Marcela Torres Teixeira.

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